18 de novembro de 2010

Ah! Família...

Estamos atravessando um período novo de muitas transformações, de grandes mudanças e nada melhor do que refletir com calma para depois com convicção corrigir os rumos e reescrever a nossa história familiar...
Tarefa difícil, mas com certeza, estamos procurando acertar!!!
Compartilho com vocês este precioso texto, escrito tão sabiamente, pelo Dramaturgo, roteirista cinematográfico, poeta e ex-dplomata, Francisco José Alonso Vellozo Azevedo nascido no Rio de Janeiro em 1951. 

Família é prato difícil de preparar


Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.


Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu.


O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

Francisco Azevedo

10 comentários:

  1. Querida Regina,

    Só você para nos brindar com um texto tão necessário como este! Que coisa mais linda e verdadeira! Emocionante!
    Vou imprimir e ler para minhas amigas baunilhetes hoje à tarde na reunião do Clubinho.
    Obrigada, querida amiga.

    Beijos,

    Eneida

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  2. Esse texto é fabuloso. Maravilhoso mesmo.

    Desejo que os rumos tomados por vcs sejam os melhores, que prevalesça o amor, a união, a fraternidade apesar das diferenças.
    Manter uma família unida é quase um ato de heroísmo nos tempos atuais. Então imagino a sua apreensão, querida amiga Regina.

    Vamos pensar positivo e crer no melhor, que tudo vá bem!
    bom dia

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  3. Que maravilha de texto tão profundo e cheio de verdades!

    um beijo,tudo de bom,chica

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  4. Que relato tan maravilloso amiga Regina, aveces paso en silencio, y aveces no me puedo quedar callada.......Te envío un gran abrazo desde España.
    Mil besitos.
    Siempre un verdadero placer visitarte.

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  5. Dindinha,
    Que texto envolvente. Amei, lí, reli, e cada vez me coloco em uma situação ali narrada. Parabenizo ao autor e a você por descobrir coisas tão belas e compartilhar com a gente.
    Não sei como saí no álbum de retrato, mas tenho tentado inventar a receita da nossa família.
    Sem prática em tão grande empreendimento tenho apanhado um bocado, errando nas “pitadas”, salgando ou apimentando demais, mas o mais importante é que estou amando de montão cada tentativa.
    Menina, é difícil, mas a gente pode sempre tentar de novo.
    Peço a Deus que acerte a medida e tenhamos chance de curtir o gostoso convívio familiar.
    Beijos,
    Ritoca

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  6. Parabéns pelo seu blog! Sou Célia Augusta, blogueira iniciante e tenho um blog que é um espaço de conversas sobre meio ambiente, turismo, cultura e identidade. Através de uma amiga e blogueira,acabei lhe seguindo!rsss...muito bom! Desejo-lhe sucesso sempre, e muita inspiração em seus posts. Como este do Azevedo, brilhante e inspirador.Minhs familia irá aumentar também, e o encantamento de um novo neto é mais do que temperar a familia, é união, alegria e continuidade!
    cheiros do Ceará
    Célia Augusta

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  7. Querida Regina,
    Fiquei emocionado com o tratamento que você deu ao texto "família é prato difícil de preparar", retirado do primeiro capítulo do meu livro "O arroz de Palma". A composição, as ilustrações, tudo muito lindo! Muito obrigado a você e aos seus seguidores pelas palavras generosas. O melhor presente para quem escreve é esse: o carinho dos leitores. E Minas Gerais tem sido pródiga comigo! Muita saúde e muito amor para você e para todos os seus.
    Receba o afeto e o abraço todo especial do Francisco Azevedo.

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  8. Eu adoro cozinhar mas confesso que preparar este prato que você nos apresentou em sua postagem, é super difícil. Acertar o ponto, nunca se consegue Regina , pois cada um tem seu paladar.
    Beijo
    Maria Luiza (Lulú)

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  9. Como é verdade isso, Regina, cada família desenvolve sua própria receita, por isso o que se serve pra uns, é desastroso para o paladar de outros...maravilhoso texto que peço licença a vc e ao escritor para levar e compartilhar com amigos e parentes. Se esta é a mostra do livro "O arroz de Palma", já anotei pra adquirir o meu!!

    Fiquei muito feliz em receber tua carinhosa visita dia desses, desejo que tudo se organize bem pra vcs, e, quando tiver um tempinho, passe pra pegar um desafio que deixei pra vc lá no Tecendo, tá bom?

    Tenha um dia cheio de alegre esperança - o que sempre encontro aqui e me faz tanto bem!!
    Bjo com carinho!

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  10. Tia Regina, você sempre nos surpreende com seus textos maravilhosos. E este então?! Lindo!Sabias palavras do autor para definição de família. Amei os arranjos junto ao texto; e hoje o que precisamos mesmo é aprender saborear mais e mais este prato que faz parte de nossas vidas. Prato que não escolhemos, o melhor somos presenteados pelo criador.
    Bjus,
    Rosi.

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